Fato
A Jovi inaugurou sua segunda loja física no Brasil, localizada no Shopping Palladium em Curitiba. O espaço comercializa quase toda a linha de smartphones da marca chinesa, com exceção do modelo recém-lançado Jovi T1. A operação é administrada pela JUFAP, empresa paranaense com mais de 20 anos de atuação no mercado. Além da venda tradicional, a loja oferece programa de trade-in, permitindo que consumidores utilizem aparelhos usados como parte do pagamento na aquisição de novos dispositivos.
Contexto
A estratégia da Jovi revela uma compreensão sofisticada sobre o papel atual do varejo físico no segmento de eletrônicos. Segundo Amadeu Cavalcante, CEO da JUFAP, o ponto de venda deixou de ser exclusivamente transacional para se tornar um espaço de experimentação. A loja física funciona como etapa de conversão em uma jornada que frequentemente começa no ambiente digital, especialmente quando o produto depende de atributos sensoriais para decisão de compra.
Essa abordagem ganha relevância adicional no caso da Jovi por se tratar de marca estreante no mercado brasileiro — a empresa opera há pouco mais de um ano no país. A necessidade de construir confiança junto ao consumidor torna a experiência presencial um ativo estratégico, funcionando também como barreira contra a insegurança em relação a marcas desconhecidas e riscos de fraudes no comércio eletrônico.
Mercado
O movimento da Jovi reflete uma tendência de reposicionamento do varejo físico no setor de tecnologia. A loja de Curitiba conta com vendedores treinados e expositores interativos, incluindo maquete para teste de câmeras desenvolvidas em parceria com a Zeiss e aquário demonstrativo para comprovar resistência à água e capacidade de fotografia subaquática dos aparelhos.
A implementação do trade-in no ponto de venda adiciona camada de conveniência ao processo de compra e atua como mecanismo de fidelização. O programa exige avaliação física imediata do aparelho usado, com técnicos aplicando protocolo de análise de hardware para calcular o desconto na hora. A operação possui restrições — o parceiro logístico responsável pela reciclagem não aceita modelos de todas as marcas disponíveis no mercado.
A Jovi também mantém acordo comercial com o Magazine Luiza para distribuição de seus smartphones em pontos físicos da varejista em 16 estados brasileiros, ampliando capilaridade sem depender exclusivamente de lojas próprias.
Análise
A estratégia da marca evidencia adaptação criteriosa ao mercado local. Um detalhe operacional relevante: a empresa não pôde utilizar o nome de sua matriz global no Brasil — na China, opera como “Vivo”, marca que aqui pertence a uma operadora de telefonia. A submarca Jovi foi desenvolvida após pesquisas de campo realizadas diretamente com consumidores brasileiros.
Essa fase de pesquisa resultou em processo que a empresa chama de “tropicalização”: atualmente, 40% do portfólio comercializado no país é desenhado exclusivamente para necessidades locais, com aparelhos que não existem no mercado internacional. O levantamento identificou autonomia de bateria como requisito prioritário do consumidor brasileiro, levando a marca a oferecer dispositivos com até 7.000 mAh em estrutura compacta.
O posicionamento inicial concentrado em aparelhos básicos e intermediários indica cautela estratégica para mapear limites de preço e aceitação antes de avançar para segmentos premium. Segundo André Casseres, Diretor Regional da Jovi no Sul do Brasil, a empresa planeja lançar produtos flagship em breve, sinalizando intenção de competir em múltiplas faixas de mercado.
Perspectiva
A combinação entre presença física, customização de produtos e programa de trade-in configura modelo de entrada gradual em mercado altamente competitivo. A parceria com grande varejista nacional acelera distribuição enquanto a marca constrói reconhecimento próprio.
O investimento em lojas físicas com proposta experiencial contraria movimento de digitalização pura e reforça tese de que produtos com alto envolvimento sensorial ainda demandam validação presencial para conversão. Para o varejo de eletrônicos, o caso sugere que a função do ponto de venda evolui para showroom consultivo, onde a transação é consequência da experiência, não seu objetivo primário.
A capacidade da Jovi de sustentar expansão dependerá de três fatores: eficiência na gestão de estoque regionalizado, execução consistente da experiência de loja em diferentes praças e velocidade para escalar portfólio em direção a segmentos de maior margem sem perder competitividade em preço.
Fonte: Canaltech